Os cinco sinais de que a sua empresa contrata na sorte, e não na estratégia
Toda contratação errada já foi, antes, uma decisão tomada sem critério.
Existe uma frase que eu ouço de quase todo CEO que cresceu rápido: contratar é uma loteria.
Eu entendo de onde isso vem. Ele já contratou bem e se decepcionou. Já contratou no susto e acertou. E, sem um padrão que explique a diferença, conclui que é sorte.
Não é.
Contratar bem é uma competência. E como toda competência, ela tem método, ou a falta dele. A maioria das contratações que dão errado não falha na entrevista. Falha muito antes, numa decisão que não foi mapeada de forma consciente e com a estrutura certa que conecta a missão e a visão do negócio.
Esta Carta Estratégica foi escrita para mostrar os cinco sinais de que a sua empresa ainda contrata na sorte. Porque enquanto a seleção for um jogo de azar, o custo dela vai aparecer na sua margem, sempre com alguns meses de atraso.
Sinal 1 — A vaga abre antes de definir o que a cadeira precisa entregar
A pressa aperta, a dor cresce, e a vaga é publicada com um título bonito e uma lista de desejos. Raramente com um critério que sustente a decisão.
Quando o líder responsável não definiu o que aquela posição precisa entregar nos primeiros noventa dias, e como vai saber que entregou, não existe seleção. Existe torcida.
E aí não tem ferramenta, recrutador ou entrevista que salve. Se você não sabe direito o que está procurando, qualquer candidato parece certo. E qualquer um pode dar errado.
Pergunta para reflexão. A última vaga que você abriu tinha um critério claro de entrega, ou só um nome de cargo?
Sinal 2 — A escolha vai no currículo e esquece quem é a pessoa
O currículo mais forte é o mais fácil de defender numa reunião. Por isso ele quase sempre ganha.
Só que conhecimento técnico se ensina. Já o comportamento, a autonomia, a forma como a pessoa decide sob pressão, isso é bem mais lento de desenvolver, e muitas vezes não se desenvolve.
Eu já vi líderes escolherem o currículo impecável e passarem os dois anos seguintes administrando o convívio. A pessoa entrega, mas cobra caro em tudo o que não aparece no relatório: a confiança do time, o clima das reuniões, os bons profissionais que vão saindo calados.
Pergunta para reflexão. Na sua última contratação importante, você decidiu pelo que a pessoa sabe ou por quem ela é?
Sinal 3 — A contratação só acontece quando a dor já está insuportável
Um profissional pede demissão, um projeto trava, a operação começa a ranger. E a vaga vira urgência da noite para o dia.
Contratação feita no susto é contratação feita sem critério, porque a pressa não deixa espaço para pensar. Você não está escolhendo a pessoa certa. Está apagando um incêndio com a primeira pessoa disponível.
E o paradoxo é cruel. Quanto mais urgente a contratação, pior tende a ser a escolha, e mais cedo ela volta a te custar.
Pergunta para reflexão. Quantas das suas últimas contratações nasceram de um plano, e quantas de um aperto?
Sinal 4 — Você espera que a ferramenta resolva o que o critério não definiu
Agora entrou a inteligência artificial nos processos, e com ela a tentação de automatizar a parte trabalhosa.
Mas automatizar um processo que já estava ruim não conserta o processo. Só acelera o erro, e em escala. Entrevista feita por robô, candidato tratado como número, e uma fila de bons profissionais recusando participar. A empresa economiza tempo e acaba afastando justamente quem ela mais gostaria de atrair.
Tecnologia é ótima, e eu uso. Mas ela amplifica o que você já tem. Se não há precisão no processo humano, colocar uma máquina por cima só amplifica a imprecisão.
Pergunta para reflexão. A sua tecnologia de seleção está atraindo os melhores, ou afastando?
Sinal 5 — Gente é tratada como custo, e não como a decisão de margem que ela é
Esse é o sinal de fundo, o que sustenta os outros quatro.
Enquanto contratar for visto como uma tarefa operacional, uma linha de despesa para preencher rápido, a empresa vai continuar tratando a decisão mais cara que toma como se fosse a mais simples.
Porque uma empresa é, no fim das contas, gente trabalhando com gente para resolver problemas de gente. A estrutura dessa gente não é assunto exclusivo de RH, mas sim responsabilidade direta do líder de área. É margem, é velocidade, é o teto de crescimento do negócio.
Pergunta para reflexão. Se a sua próxima contratação errada custasse, somando tudo, perto de um ano de salário, você decidiria com a mesma pressa?
A virada que mudou como eu olho para contratação
Durante anos eu também achava que o segredo de uma boa contratação estava em encontrar a pessoa certa. Hoje eu sei que o segredo está em saber, antes, o que “certo” significa para aquela cadeira, naquela empresa, naquele momento.
Minha formação em psicologia me ensinou a ler o que não aparece no currículo nem no organograma: como a pessoa decide, como se relaciona, como reage quando a pressão chega. E os anos dos dois lados da mesa, dentro de multinacionais e depois à frente do meu próprio negócio, me mostraram que contratar é a decisão que mais define o futuro de uma empresa, e quase sempre a que mais se toma no escuro.
É por isso que eu chamo isso de atração e seleção estratégica. Não é recrutamento. É desenhar, antes de sair procurando, o que a empresa precisa ter do lado para chegar onde quer chegar. Investigar o cargo antes de investigar o candidato.
Sala do Conselho
Antes da próxima contratação importante, leve estas cinco perguntas para a mesa.
- O que essa posição precisa entregar nos primeiros noventa dias, e como vamos saber que entregou?
- Estamos decidindo pelo que a pessoa sabe ou por quem ela é?
- Esta vaga nasceu de um plano ou de um aperto?
- Nossa tecnologia de seleção está atraindo os melhores ou afastando?
- Se esta contratação der errado, qual será o custo real, somando salário, tempo e o efeito no time?
Se essas perguntas mudarem uma única decisão que você tomaria no piloto automático, esta Carta Estratégica cumpriu seu papel.
Se essas perguntas também fazem sentido para a sua empresa, vamos conversar.
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